×
// trilha · bloco 1 · sala 2

O que é um dado, e por que o seu vale tanto

Você produz muito mais do que digita. E o valor não está onde você imagina.

5 min · nível começando · as migalhas

Na sala passada, você viu que o que manda pela internet vira cópia espalhada, fora do seu controle. Ficou uma pergunta no ar: o que essas cópias guardam sobre você?

A resposta tem um nome curto: dado. E aqui vai a primeira surpresa desta sala. Você produz muito mais dado do que imagina, e a maior parte dele você nunca digitou.

Quando alguém fala "meus dados", costuma pensar em nome, CPF, telefone, talvez uma foto. Isso é dado, sim. Mas é só a ponta.

Tem um segundo tipo, invisível, que você não escreve. Em qual foto você parou pra olhar, e por quantos segundos. A que horas você está acordado no celular. Onde você esteve hoje. Com quem você troca mensagem todo dia. Você não digita nada disso, você emite, só de usar.

Qual desses também é um dado seu?

Isso. O rastro que você deixa sem digitar também é dado, e é o que mais vale.
Quase. Nome e CPF são dado, mas o rastro invisível também é, e vale mais.

Uma migalha dessas, sozinha, não vale quase nada. Ninguém se importa que você olhou um tênis por quatro segundos. O valor aparece quando juntam milhares de migalhas suas. Juntas, elas formam um retrato: o que você quer, o que você teme, a que horas você está cansado e compra por impulso. Esse retrato prevê você, e prever você é o que vale dinheiro.

E é por isso que tanta coisa por aí é "de graça". O retrato que dá pra montar de você vale dinheiro, então o serviço sai sem cobrar em real, porque o pagamento é esse retrato. Não é maldade escondida, é o modelo. Saber disso já muda como você olha pra um aplicativo grátis.

Um app de lanterna, que só acende a luz, pede pra acessar seus contatos e sua localização. Pra que uma lanterna precisa saber onde você mora e quem são seus amigos?

Pra fazer luz, não precisa de nada disso. Precisa pra coletar. A lanterna é o serviço que te entregam, e o seu dado é o preço que você paga sem ver. A regra que fica: quando um aplicativo pede muito mais do que a função dele exige, o que ele quer é te conhecer melhor.

No seu celular, entre nos ajustes e procure a lista de aplicativos. (No Android costuma estar em 'Aplicativos'. No iPhone, em 'Privacidade e Segurança'.) Abra um aplicativo que você usa bastante e olhe as permissões dele: localização, câmera, microfone, contatos. Ache uma permissão que não combina com o que o app faz. Um jogo de palavras não precisa do seu microfone. Desligue essa.

Um jogo gratuito pede acesso aos seus contatos e à sua localização o tempo todo. Qual é a explicação mais provável?

'De graça' quase sempre quer dizer que o pagamento é o seu dado. O jogo é real, e o retrato que ele monta de você também.

Mais uma luz acesa. Agora você enxerga os seus dados.

// dado é todo rastro que você deixa, e vale porque forma um retrato de você